Do tempo do Brasil República


by Vanessíssima em , ,

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No ano em que o Brasil virava república, Guerlain lançava o Jicky. Oh yeah, adeus, D. Pedro II, e olá, essências sintéticas! 1889 bombou, não? O fato é que Jicky revolucionou a perfumaria dando início à modernidade e bla blá blá. Ok, chega de história! Bora falar de cheiro, pois é pra isso que temos nariz. Tá, não é, mas fica sendo. 

Pois bem, a monarquia passou e Jicky permaneceu no trono. Esse perfume tá na roda até hoje. Oriental, ele vem com alecrim, tangerina, bergamota e limão siciliano na saída, fava tonka, lavanda, raiz de orris, manjericão e jasmim no coração, e especiarias, couro, sândalo, âmbar, benjoim, baunilha e pau-brasil na base.

Acredita em mim quando eu digo que Jicky é sujinho? Sim, ele é! Tem ali um toque fecal que deixa a coisa bem interessante. Sim, fecal! Cocô, meu povo! Cocô! Pode desfazer a careta aí que Jicky é sujinho mas é bonzinho. Veja bem, ele podia tá matando, mas não, ele só tem cheiro de cocô mesmo. E eu vou além e te explico esse cocô: ele é um pouquinho ácido. E esse cheirinho animal, demasiadamente animal, é bem bacana, viu? Ok, pode rir agora. Ou não.

No mais, do lixo ao luxo, Jicky também é um perfume limpo. Limpo? Sim, limpo! Opa, aposto que tem um ponto de interrogação piscando aí na sua testa agorinha, né? 

Pois bem, antes de toda a sujidade, o lado cítrico da força aparece. Muitas frutas cítricas explodem e refrescam a vida. Temos lá um toque herbal delícia também. E dá pra sentir mega bem a lavanda (e, pra mim, ela é um misto de flor com erva). Lavanda linda, linda e linda! E aí que o frescor ganha quentura e Jicky termina morninho, aquecido pelas madeiras e pela baunilha. Há nele também qualquer coisa de talco antigo esquecido dentro da gaveta da cômoda quase embolorada.

No geral, perfume incrível! Do começo ao fim, ele é interessante. E bonito. Tem boniteza na sujidade sim! Sou dessas. Quem me conhece sabe que gente limpinha demais me dá urticária. Rá! Enfim, Jicky tem todo um je ne sais quoi. Merece ser aplaudido em pé! Ah, me refiro à versão EDP, ok? Foi ela que conheci (thanks, Dênis!).

No fim das contas, fico cá com uma pulguita detrás da orelha: teria Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon (a.k.a Princesa Isabel, filha do homem) usado Jicky

Só sei que Truman Capote tá neste exato momento me emprestando este trecho lá do Answered Prayers (thanks, Puck!): The room smelled of her perfume…at some point I asked what it was, and Colette said: “Jicky. The Empress Eugénie always wore it. I like it because it’s an old-fashioned scent with an elegant history, and because it’s witty without being coarse – like the better conversationalists. Proust wore it. Or so Cocteau tells me.”

PS: Só este blog pra me proporcionar a alegria de juntar perfume, D. Pedro II, cocô e Truman Capote no mesmo texto. Rá!