Archive for 2016

O segredo do Olympéa


by Vanessíssima em , ,

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Olympéa (Paco Rabanne) tá pra mim mais do que eu tô pra ele. Trocando em miúdos, ele é bom, mas me cansa. Integrante da nova safra lugar-comum de "perfumes doces para mulheres adultas contemporâneas", Olympéa se destaca pela incrível (e aqui super bem usada) nota de sal. Eu sei, você sabe, nós já vimos esse filme antes (L de Lolita e Womanity têm ali um toque salgadinho que não me deixam mentir), mas ninguém liga de assistir de novo ao mesmo filme quando ele é bom, né? E Olympéa começa promissor.

De acordo com Paco, ele é oriental floral e as notas são as seguintes: baunilha salgada, jasmim aquático, flor de gengibre, tangerina verde, âmbar gris e madeira cashmere. 

E o salzinho amigo me pega ali bem na ponte nasal, sabe como? Gostoso sentir essa cutucada marota. Não fosse por ela, Olympéa seria mais um a pegar rabeira no famigerado reino do La Vie Est Belle. Ok, agora você já sabe qual é o segredo do Olympéa e por que ele anda vendendo tanto.

Depois de umas horinhas, a mistura de jasmim molhado, gengibre assanhado, tangerina hiperativa e baunilha docinha (agora sem o sal) virou aqui na minha pele um samba de uma nota só e ficou martelando na pontinha do meu nariz tempo suficiente pra me cansar. Dá até pra achar que tem uma frutinha vermelha meio over escondida ali (incrível como isso acontece com todo Paco Rabanne que eu experimento!). E aí que a fixação e a projeção estupendas desse perfume na minha pele se viraram contra mim. Até chegar no conforto e na maciez do âmbar gris e da madeira, eu já tava cansadona do Olympéa. É, eu não tenho mais idade pra brincar disso não. Talvez no inverno.

Hot Couture EDP


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Existem dois tipos de pessoas: as que amam o Hot Couture (Givenchy) e as que odeiam o Hot Couture. Dou a mão para as primeiras. Meu amor por ele é tamanho que catei logo um litrão de 100 emiéles porque eu não tô pra brincadeira, bebê!

Não sei se você notou, mas aqui no blog raramente em intitulo um post com o nome do perfume sobre o qual eu tagarelo. Desta vez eu fiz diferente que é pro povo chegar mais ou sair correndo de vez. Vamos facilitar as coisas, né? E a maioria das pessoas que eu conheço odeia o Hot Couture. Eis um perfume incompreendido, coitado!

Floral frutal, ele vem com framboesa, tangerina, vetiver, magnólia, sândalo, almíscar e pimenta-preta, mas muita pimenta-preta, bastantão, muita mesmo, todo o estoque de pimenta-preta do mundo!

O líquido rosinha é irônico. Hot Couture é potente e picante como nenhum outro frutado ousou ser antes. Ele também é doce e morno. Yes, sai da frente porque tem muita coisa acontecendo ali! 

Eu não costumo curtir fruta vermelha em perfume, mas não é que a framboesinha do Hot me apeteceu com força? A combinação dela com a especiaria que já fora utilizada como moeda em Roma é surreal de boa and inusitada. A coisa é tão diferentona que faz você se apaixonar por ela. Ou não. 

As frutas são singelas, mas todo o resto não. Tudo aquilo junto me traz um cheiro doce e enfumaçado de tabaco sofisticado que não sei de onde vem. A pimenta é a do tipo moída na hora, sabe como? Tem um frescor sui generis saindo dali. As flores são macias e frescas, recém-saídas da terra com raiz e tudo. A madeira é enfumaçada. O resultado é inebriante e confortável. O curioso é que na minha pele ele fica intimista. Mas atenção: ele costuma gritar em outras paragens.

No frio, Hot Couture se torna uma segunda pele cheirosíssima que te dá um poder lindo (feito roupa de alta costura) e gruda em você por umas 10 horas. No calor, ele mira na tua testa, atira e te derruba no chão. 

Só sei que dá vontade de chorar encolhida ali no cantinho só de pensar na perfumaria atual, tão carente de perfumes audaciosos como esse, viu?

PS: A versão EDT, que eu não conheço e é difícil de encontrar, é completamente diferente, ok? Dizem que ela é mais [cof cof] usável.

1948 é logo ali


by Vanessíssima em ,

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O cravo brigou com a rosa no laboratório do perfumista Francis Fabron por volta das 18h da última sexta-feira, 4 de junho de 1948. De acordo com testemunhas, houve intensa discussão e cada flor seguiu para um lado. Em seguida, o cravo se dirigiu à mesa de Fabron e se enfiou dentro de um frasco adornado por uma tampa que trazia duas pombas. Segundo os investigadores, o cravo, bastante alterado, não parava de repetir: "daqui eu não saio, daqui ninguém me tira". Pouco depois, a rosa foi vista entrando no frasco também. O caso foi registrado no 1º DP da história da perfumaria. Taí, L'Air du Temps (Nina Ricci) é basicamente isso. 

Criado há 68 anos, ele envelheceu bem, viu? Tipo a Bruna Lombardi (alguém diz que ela tem 64 anos, gente?). Todinho retrô (a ponto de muita gente o identificar com "cheiro de vó"), ele segue perfeitamente usável por quem admira um clássico ou teve um jardim de cravos na infância e não esquece aquele mágico cheirinho floral-terroso-cremoso-picante-úmido. Eu me encaixo nos dois casos.

Quem viu O Silêncio dos Inocentes com a atenção e o carinho que esse filme merece vai se lembrar do momento em que Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) encontra Clarice (Jodie Foster) pela primeira vez e saca que ela usava L'Air du Temps. Detalhe: Clarice não estava usando perfume naquele dia. E Lecter, claro, sabia disso. "You use Evian skin cream, and sometimes you wear L'Air du Temps, but not today", foram as palavras dele. E, olha, nem precisa ter o olfato tão apurado quanto o dele, viu? Mesmo depois de tomar banho e, pasmem, na manhã seguinte, eu (que não sou ninguém na fila do Oscar) ainda posso sentir o L'Air du Temps na minha pele.

Total pós-guerra (a Segunda Guerra Mundial tinha acabado três anos antes da criação do dito cujo), ele vem com cravo (né?) e gardênia na saída, rosa (olha ela aí!) e jasmim no coração, e sândalo e íris na base.

Novamente, eu vou bater na tecla: L'Air du Temps tem cravo (a flor). E depois não diga que eu não avisei! Cravo é uma flor difícil pra muitos narizes. Sim, porque esse perfume é basicamente cravo. E sabonete. Lembra que eu falei que ele é antigão, né? Mas ele não é pesado. Ao contrário, é leve, mas marca presença, e faz bonito durante o dia. E fica mais lindo quando a temperatura tá amena. Acho refinadíssimo, como poucos conseguem ser (ainda mais hoje em dia).

PS: 4 de junho de 1948 caiu mesmo numa sexta-feira. Mas eu só fui descobrir isso depois que o texto tava pronto. Chutei. E fiz gol. Rá!

Doce elixir


by Vanessíssima em , ,

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L'Erbolario é uma marca italiana bacaninha, acessível (lê-se: relativamente barata para os padrões) e, infelizmente, pouco conhecida cá no Bananão. Facilmente encontrada no ebay, ela oferece uma imensa gama de cosméticos com pegada natural, sustentável e cruelty free. Uma das crias da casa é o perfume Dolcelisir, uma brincadeira com as palavras italianas dolce (doce) e elisir (elixir). Por aí já deu pra sacar a coisa toda, né? 

Ele traz na saída bergamota, laranja, caramelo e rum. O coração tem jasmim, rosa, sempre-viva, lírio-do-vale, canela, cana-de-açúcar e cacau. Na base, patchouli, baunilha, benjoim, tonka, âmbar e almíscar.

Pois bem, começo dizendo que Dolcelisir parece perfume de nicho, gruda na pele feito tatuagem e inebria feito vinho.

Por essas e outras, Dolcelisir é absolutamente doce, intenso, quente, vibrante e licoroso. E se você leu uma antiga edição da Mesa-redonda já sabe que ele me remete a apfelstrudel. Mas desconstruído, coisa de restaurante chique, ok? Nada de sobremesa congelada vendida no supermercado, please! O lance aqui é doce "gourmetizado" feito com canela, rum e frutas secas. No frio ele brilha!

Dizem os bons narizes que ele se parece muito com o badaladérrimo Ambre Narguilé (Hermès). Como eu não conheço o dito cujo, paro por aqui.

Balé urbano


by Vanessíssima

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Make B. Urban Ballet chegou n’O Boticário como edição limitada e promete ficar até meados de setembro. Até lá, (quase) todo mundo vai ter tempo de prová-lo e achá-lo parecido com o 212 VIP Rosé (Carolina Herrera). Até na cor do frasco. 

Abre parênteses. Particularmente, prefiro o nacional. Tem algo ali no perfume da Senhora Herrera que me enfadonha depois de um tempo. Já o do Boti me é mais rico e encorpado. Achei uma delícia do começo ao fim e acabei adotando um (apesar do precinho chato – a saber: R$ 119 por 70 ml de líquido). E pensar que eu nem entrei na loja interessada nele. Não fosse a simpaticíssima vendedora querendo bater a meta do mês, eu nem teria cafungado o dito cujo [coleguinhas da Amanda, aprendam com a moça!]. Fecha parênteses. 

Classificado como floral amadeirado, Urban Ballet tem, segundo a marca, pera [gramáticos, me devolvam o acento diferencial que tava aqui, please!!!], flores transparentes e cardamomo na saída, tulipa negra, rosas e lírio no coração, além de cedro, cashmeran, caramelo e vetiver na base.

Eu bem que queria uma definição pra “flores transparentes”. Alguém tem? Não? Então vamos filosofar e decidir que “flores transparentes” são pequenas florzinhas banhadas pela luz do sol numa manhã de outono. E aí a gente derrama um pouco de suco de pera sem acento nelas e tudo isso junto faz ploc. Borbulhas efervescentes surgem. E temos aqui um delicado cheiro de champanhe a rodopiar. 

Desconheço o que uma tulipa negra faria pelo meu nariz, então me abstenho de tagarelar acerca de.

Já a base, ah, a base... Foi ela que me fez voltar lá na loja e responder ao imaculado “débito ou crédito?”. Madeira macia temperada com um fio de caramelo e uma pitadinha de vetiver, tudo rente à pele e aconchegante é o que temos por ali.

Em suma, Urban Ballet começa com cheiro de espumante, segue floral fresco e termina numa base amadeirada levemente doce bastante confortável. E a fixação? Contei nove horas e entrei no banho. Tá bom pra você?

Taí um perfuminho que evolui lindamente na avenida. Apesar dos contrastes (saída fresca borbulhante X base morninha), tudo é bem equilibrado, nada destoa, com a escola terminando o desfile de forma corretinha. Fragrância casual, versátil e despretensiosa. Não muda a vida de ninguém, mas é gostosa de usar. Venderia mais se custasse menos. Enfim, fazia tempo que eu não me encantava com algo do Boti, viu? Uma pena ser edição limitada.

PS: O blog ainda vive. Ele anda mais devagar quando a vida vai mais depressa. 

Bagatelle


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Século XIX. Corre! Corre! Anda logo! A ópera já vai começar! Com licença, onde fica o acesso pro mezanino? Cara, este espartilho tá me matando! Pera lá, não pisa no meu vestido! A cadeira da ponta é minha! Gente, cadê meu binóculo? Ufa, tá aqui! Ah, não, mãe, de novo? Ninguém mandou você esquecer seu pince-nez na carruagem! Alguém não vai ver a ópera hoje à noite. Só vai escutar, né mãe? Olha, já vai começar! Pausa pra selfie. 

Podia ter sido assim, né? Bom, na minha cabeça foi. E digo mais: mãe e filha aí estavam usando Jardins de Bagatelle (Guerlain), que eu conheci graças à Helen. Thanks, Helen! 

É evidente que sou chegada numa overdose de licença poética, néam? Até porque (como se o problema fosse só este. rá!), Jardins de Bagatelle não foi criado no século XIX, mas nos XX. Ele é de 1983 mesmo. Ah, e o lance aqui é sobre a versão EDT, ok?

Floralzão de responsa, ele guarda luz e alegria dentro dele. Perfume ideal pra uma noite de ópera, como não? Seja você mãe ou filha, Jardins de Bagatelle cai bem. Só é preciso curtir florais brancos. Daqueles feitos com tuberosa, ok? Aviso dado.

A abertura traz limão, bergamota e neroli. O coração tem rosa, jasmim, gardênia, magnólia, narciso e tuberosa. Na base, patchouli, cedro, vetiver, tonka, benjoim e almíscar.

Todo trabalhado basicamente no neroli, no jasmim, na gardênia, nas madeiras e, bingo, na tuberosa, Jardins de Bagatelle é espetaculoso. E lindo. É só não exagerar (assim como a gente deve fazer nas noites de sexta, sabe?).

Explosão de flores brancas sob o sol, o amigo oitentista foi buscar inspiração no bonito, mundano e francês Jardim de Bagatelle, outrora apreciado pela mitológica Maria Atonieta que, certeza, seria aloka da selfie caso a selfie já existisse naquela época (aposto um macaron nisso!).

Refinadíssimo como quem vai à ópera em família, ele tem ali sua inebriante porção aldeídica como só se vê nos bons clássicos.

A Helen falou dele aqui.